quarta-feira, 15 de agosto de 2007

A pergunta sequer foi formulada

Como estudantes de jornalismo estamos acostumados a responder, ou pelo menos tentar, as cinco perguntas do lead (o quê, quem, quando, onde e como). Quando as respondemos de maneira clara, com argumentos e apresentamos um texto conciso somos elogiados por nossos professores das disciplinas de redação. Um bom lead é meio caminho andado para um bom texto.
Mas, o que me preocupa agora não são as respostas de nossos textos ou as respostas de qualquer texto. O que fazer quando as perguntas não são sequer formuladas? Em seu livro IBM e o Holocausto, o escritor Edwin Black mostra essa mesma preocupação. Visitando uma exposição sobre a Segunda Guerra Mundial com seus pais (sobreviventes do Holocausto), Black se deparou com uma máquina tabuladora da IBM. Na mesma exposição, em outra sala, mais uma máquina IBM. Mais de meio século depois do término da Segunda Guerra e da contabilização dos milhões de mortos, as máquinas da IBM figuravam entre as peças expostas que simbolizavam a Guerra. Em todo esse tempo nenhum historiador, nenhum jornalista, nenhum educador tinha se perguntado o porquê de tantas máquinas expostas. Qual a relação entre a IBM e as mortes da Segunda Guerra? As máquinas contribuíram para aumentar o número de mortos? Durante mais de cinqüenta anos como ressalta o autor: “A pergunta sequer foi formulada”. Mesmo que mal respondidas, ou nem respondidas, o que mais preocupava o autor era que as perguntas nem tinham sido feitas. Em seu livro ele tenta responde-las, até mesmo como o próprio autor ressalta: “Em respeito aos meus pais e milhões de judeus”.
A obra de Black traz informações, sempre baseadas em provas documentais, sobre a ligação de uma das maiores empresas do ramo de informática, a americana IBM, e a Alemanha Nazista. A tecnologia da IBM era indispensável para o cadastramento e localização de todos os judeus da Europa. Só assim, seria possível executar o extermínio dos judeus da forma e no tempo que fora arquitetado por Hitler.
IBM e o Holocausto é só mais um exemplo de perguntas que demoram a serem, ou nunca são, formuladas. Sem questionar a importância das respostas tradicionais que fazem um bom lead e um bom texto, precisamos nos ater às perguntas que não são feitas; às contradições que não são sequer notadas...
Ou então, vamos continuar achando normal que uma marca de cerveja patrocine transmissões de automobilismo; que o MV Bill que passou a carreira toda criticando a Globo e suas novelas participe do Criança Esperança; que os telejornais continuem anunciando deflação; que os Estados Unidos e os países do Conselho de Segurança da Onu gastam bilhões de dólares por ano, em armas.

Um grande abraço!

3 comentários:

Álvaro S.Frasson disse...

Embora ache o lead um substrato de raciocínio humano, é impossível não estra de acordo sobre a indignação do autor do livro IBM e o Holocausto - livro, aliás, que estava a procura do nome, pois me fugira, obrigado.
A história tem perna curta, principalmente se tratando dos ideiais norte-americanos. Qual seria o rumo da guerra se não desse na telha dos kamikazes japas atacar Pearl Harbor?
E a IBM? Que fazia vendendo seus produtos, então mordeníssimos, para uma guerra? E para o inimigo!?
Perguntas tentei formular...

Excelente texto
abraço

Antonieta de Barros disse...

As 5 perguntas do lead são 6: quem, o que, quando, onde, como, porque e a quem.

Me lembra de, quando te encontrar, te dar outro abraço. Dessa vez, por este texto.

Axé.

Carlos Alberto disse...

E quem garante que foi os japoneses que atacaram Pearl Harbor. E não mais uma montagem dos americanos.
E bom rever nossos conseitos, antes de sair falando qualquer coisa por ai.